11.1.15

Spoiller Profissional: Gone girl

Um filme que entretém e surpreende por duas vezes, sendo que a 1ª revelação que o faz, fá-lo pelos seus contornos doentios, e resolve a meio da trama a questão nuclear do filme, o que aconteceu a Amy Dunne.
A segunda surpresa e que constitui o fim da película, por ser tão verosímil, angustia, dado que evidência que a resignação e a submissão vencem muitas vezes e por vezes são a única hipótese efectiva de sobrevivência, nomeadamente entendamos com sobreviver a manutenção da liberdade, por via de não se ser preso. ou da vida, literalmente, por via de não se ser morto.

Porém os filmes não são vida e depois do fim há sempre mais, por tal dificilmente dada a situação que constitui a realidade da personagem mais assombrada, a resignação não duraria para sempre. Todos os filmes podem ter uma sequela, ainda bem que não têm.

O filme aborda uma realidade transversal  que quase todos conhecemos e que se prende com o desgaste que vai acontecendo nas relações  por umas razões ou por outras, como por exemplo a paixão passar e a realidade da vivência diária com alguém ser baseada em todo o tipo de circunstâncias complexas, desafiantes, problemáticas, desalicersantes.

O esplendor da beleza e a eloquência nas palavras perdem a sua força com a passagem do tempo, ao mesmo tempo que a lucidez aumenta o enamoramento vai esmorecendo. A passagem da paixão para o amor envolve respeito e quando esse respeito e o querer bem não são inabaláveis é fácil uma relação desfragmentar-se, perder sentido, dar azo a novas buscas pela satisfação, assim como a auto-destruições ou à destruição do outro.

Porém o que no meu entender é mais relevante no filme é a critica social que encerra, nomeadamente por dar visibilidade às distorções malignas que vendem blocos noticiosos a sociedades sedentas de distracções, de emoções, de sangue que naturalmente os compram de bom grado

Sociedades que têm gáudio em tirar conclusões precipitas, que especulam, que estão sedentas por sordidez, que maldizem os que apedrejam mas que atiram ovos duros como pedras.
Sociedades que compram a vida dos outros, a mentira, o julgamento em praça pública e que não pensam que um dia lhes pode bater á porta a devassidão dos outros sobre o que não lhes diz respeito e a sua sede de pormenores escabrosos.

Sociedades de pessoas que não têm o discernimento de pensar que estão a comer de uma mão que um dia as pode levar à boca.

Ainda bem que vivemos do lado do mundo em que a liberdade de expressão é uma possibilidade, porém a liberdade de expressão tem dois lados apenas, o que faz do mundo um lugar onde pode haver esperança e o que torna o mundo repugnante.

Outro lado que é explorado por acréscimo foca a resignação que por vezes tem de prevalecer por parte das únicas pessoas que poderiam resolver uma situação grave a bem, falo da polícia, que em mais situações do que seria recomendável se têm de subjugar a falhas nas leis e nos procedimentos, que impedem que a verdade seja encontrada e a justiça reposta.



Enfim vale a pena ver.