5.12.14

O facebook e os egos esfomeados que comem de boca aberta!

john holcroft

Não tinha planeado este post, mas esta premente ilustração, uma no meio de outras igualmente incisivas, daquelas em que o dedo toca na ferida, de um mesmo ilustrador, fez com que quisesse vir para aqui dar os meus pareceres sobre esta rede social que é transversal neste bola globalizada.

Bem o facebook é o que as pessoas fazem dele, para o bem e para o mal. Não passa de um meio, com vários meios e vários fins. A sua génese é a de uma toalha branca bem cheirosa estendida ao sol, ou uma tábula rasa pronta a ser preenchida.

Bem o facebook pode ser utilizado como ferramenta de comunicação, de actualização, de contacto com o que se produz no mundo. apresenta uma maneira latentemente gratuita, após se darem um trocos a esses garimpeiros das telecomunicações, de falar com pessoas, combinar coisas, perguntar se está tudo bem e marcar a próxima ida ao café.

Bem o facebook permite-nos expressar opiniões, partilhar gostos, passar conteúdos que achemos contundentes.

Enfim esta é a utilização benigna do facebook, vicia na mesma, é uma ferramenta da procrastinação, mas tem coisas boas, várias.

Mas o facebook tem tal como tudo à face da terra, duas faces, a maligna é a aquela em que nos servimos dele para engordarmos o porco do ego, esse bicho rosadinho que quer é comer não interessa bem o quê, nem de que maneira, faça chuva ou faça sol o que interessa é chafurdar na lama com alegria ou vitimização, impaciência ou a fazer jooging.

E partilha-se tudo, tudo, tudo, menos um kilo de arroz e o livro que compramos para a foto da mesa de cabeceira com o candeeiro aceso para dar aquele ar vintage ficar mais equilibrada.

E mostra-se o rabinho, o focinho, faz-se um biquinho, mostra-se o almoço, o jantar, a seia, a amiga a vomitar.

Mostra-se o cãozinho, o gatinho, o namoradinho, o sapatinho, o vestidinho, o diabo a 4, o cabelo afoito.

Mostra-se a toda a hora. que nada fique por contar, que nada fique por mostrar, que nada fique por gostar.

E agora um bocadinho de água na fervura toda a gente se mostra pontualmente, de uma maneira ou de outra, toda a gente precisa pontualmente que lhe afaguem o ego, faz parte de ser pessoa.

Mas o problema de mostrar muito, muitas vezes, muita coisa, é como o de comer muitos doces, faz mal, naturalmente aos próprios, mas também aos outros, aos que o fazem também e aos que não o fazem mas ficam a ver.

A vida não é um desfile de vaidades em Veneza, felizmente é mais do que isso. Fazer a vida depender da suposta aprovação dos outros, que muitas vezes não passa de desaprovação, inveja, ressabiamento, competição, mais tarde ou mais cedo vai causar dano. Fazer a vida depender de ser mostrada para se considerar vivida, faz com que se viva com menos intensidade a realidade.

De resto também percebo que depois de se entrar na trama é difícil sair, de resto também há muitas formas equilibradas e positivas de nos mostrarmos ao mundo, fazer render o peixe... O que me entristece é que a forma harmoniosa de existir fora da realidade, e dentro desse meandro virtual, não esteja de todo em maioria. Evoluimos muito ao longo de muitos séculos, humanísticamente falando, somos ainda bárbaros, mas muitissímo menos do que já fomos, mas estamos a regredir ao mesmo tempo que evoluímos, sempre fomos fúteis mas talvés nunca o tenhamos sido tanto.

Em modo de conclusão e de resto ninguém vale por ter um rabo jeitoso, uns lábios carnudos, umas pernas bem torneadas, um cão sumptuoso, um gato de marca. Ninguém vale pela comida que ontem comeu no restaurante da moda e que hoje já está digerido e foi pelo cano.
Ninguém vale por ter a designação de doutor e vestir um fato durante a semana.
Ninguém vale por ir de férias para um sitio paradisíaco tirar fotos dos presuntos e dos pés sem calos.
Ninguém vale pelo que parece, alguém vale pelo que é. E o que se é é invisível aos olhos.

O mal não está no facebook, não é ele o vilão da nossa história social, os piores inimigos que podemos ter geralmente somos nós próprios.