5.10.14

A casa nova, a ansiedade, a realidade e a alegria

Foram anos a pensar demais sobre como seria, sobre quais as almofadas certas, sobre a cor do tapete, o tecido dos cortinados, a textura dos panos de cozinha. Foram anos a fazer 1001 combinações, a pensar como é que vai ser, a pensar nas inesgotáveis hipóteses, e como é angustiante ter hipóteses...a liberdade quer-se com contingencias.
Foram anos de ansiedade, por vezes de uma ansiedade alegre, de outras vezes uma ansiedade doente.

Porque é que estou aqui? Já vão saber!


Mas enfim que chega a realidade, o dia em que é verdade, o dia em que se vão fazer escolhas concretas, com constrangimentos, com liberdade condicionada mas avassaladoramente livre, o dia em que se consuma um sonho, que de tão sonho se torna inacreditável mesmo quando já está materializado em mesas, cadeiras, camas, armários, pratos e frigideiras. Estou a crescer! e ainda agora era uma criança...será que já não sou? Sou. É a criança dentro de nós que nos permite a felicidade e a mais profunda tristeza. Para o bem e para o mal nunca deixamos de ser a criança que fomos, que não sabe, que não percebe, que brinca, que gosta de festas.

A casa nova tem dois gatos que são meus, já não são da minha mãe ou da vizinha do lado, já não são do carro que ainda está com o motor quente, são meus e vivem em minha casa. Um dia os bebés também não serão os da prima, da amiga, da conhecida, do resto do mundo, um dia terei um bebé meu e dele e já aprendi que não vale a pena dedicar-me ao passatempo das ansiedades, não serve para nada, não vai mudar nada, não vai levar ao controle muito pelo contrário.

A casa nova não é perfeita, mas nunca teria do o ser e nunca o poderia se-lo porque tal como não existem outras coisas, a perfeição é uma quimera inexistente. O sofá foi barato, possivelmente o mais barato possível, a televisão é a mais pequena que havia mas vê-se tudo muito bem, não há máquina de lavar, lavamos a roupa na máquina que há a 5 minutos daqui. Temos uma caixa de fruta para pôr as revistas que fui buscar ao lixo, o Davi detesta que eu vá ao lixo, mas eu não faço tudo o que ele quer! gosto muito dela, mas tive um bocado de vergonha quando vim com ela para casa...
Não temos uma bimby, no frigorífico cabe o essencial, comprei um cacto de pedra, branco fashion e não me arrependo, ficou bonito.

Não me cinjo estritamente ao essencial, se me cingisse, continuaria a ter como sofá aquela cama de solteiro dele e como mesa, a mesa dobrável do campismo, se chegava? perfeitamente, é preciso pouco para viver.
Se é pobre quem tem comida, um tecto mesmo que de palha para se proteger do sol e da chuva, formas naturais de se proteger da doença, mas não tem uma televisão de 30 polegadas com um sistema de som robusto? Lamento mas não é. Há vida plena e quiçá a felicidade efectiva mora para lá da do 1º mundo onde temos o privilégio de viver?

Enfim continuando, orgulho-me por conseguir fazer escolhas apesar de tudo, e sim pragmáticas, o pragmatismo é talvez a minha principal qualidade. Tenho uma tendência para a ansiedade, mas lido com frieza e sensatez com a realidade, escolho de forma pragmática, lá está, e orgulho-me de ser muitas vezes o primeiro rato asqueroso e querido a fugir do barco, pretensão à parte e água benta quanto baste, vejo o buraco antes de ele aparecer, é claro que já cai para dentro de uma série deles.




A casa nova fez-se-me aparecer nos olhos umas lágrimitas de qualquer coisa entre a alegria, e a tristeza, o medo e não sei quê, a casa nova, ou melhor a porcaria dos móveis fáceis de montar, e não é que foram mesmo, deram-me uma dor de costas que ainda amanhã se vai fazer sentir, a casa nova, ou melhor tudo o que ela simboliza, evidenciou uma coisa com que vou ter de lidar, já não à saída deste barco, agora sou um gato e não gosto de água, agora é continuar em frente e fazer frente a tudo o que há de vir, ir ao sabor do vento,depois içar as velas para controlar a rota, resguardar tudo para fazer face à tempestade, limpar o chão para não escorregar, rodar o leme até ficarmos tontos, descer a ancora quando for preciso pensar, deitar fora a bússola e seguir sem destino, chegar ao fim e ficar a contemplar o sol, chegar ao infinito e sorrir. Quando se chega ao fim já não somos ratos, nem gatos, somos pessoas completas, há magia em chegar ao fim no fim.

Enfim casa nova, a porcaria do chão para lavar, a casa de banho sempre porca, o lava loiça que parece que anda a parir pratos.



Um barco desgovernado, mas com madeira feita de amor.