7.9.14

O jornalismo de entretenimento ou os malabaristas de notícias

Admiro a arte, estimo a capacidade de construir com palavras, de expor, de questionar, de testemunhar, de informar. Admiro pessoas capazes de encontrar de entre todas as melhores palavras para expressar com exactidão os factos, mas também as opiniões pessoais, as ideias.

Na minha infância sempre vi religiosamente as notícias durante todos os jantares, durante muito tempo como é natural não compreendia muito do que era dito, mas ia-me esforçando. Com o passar do tempo as coisas foram-se clarificando a pouco e pouco, só algumas claro, muitas ainda permanecem ignoradas ou incompreendidas.

Lembro-me de achar os blocos noticiosos uma coisa séria, fidedigna, lembro-me de achar que no geral aquelas pessoas cumpriam a preceito os ditames éticos da sua profissão.

Já não acho, os conteúdos em geral dos canais generalistas em Portugal têm vindo a degradar-se com o tempo, progressivamente, a pouco e pouco até aos dias de hoje e os blocos noticiosos não são excepção, e em vez de construírem, destroem.

São muitos os profissionais de televisão nas mais diversas áreas que respeitava, que achava capazes, talentosos, confiáveis e que já não considero que o sejam.

A televisão generalista, com excepção da rtp onde ainda sou capaz de ver valor em vários programas, para mim morreu, e morreu sem que sinta saudades, evito até por lá passar, porque um minuto que seja por esses becos sem saída já se reverte em dinheiro a favor de instituições onde já não vejo a vontade de ser uma boa influência que houvera noutros tempos.

Mas este artigo é sobre telejornais, que se me ponho a falar do resto o escarnio é tão grande que ia correr mal e ficava apoderada por uma cólera que me faz doer o estomâgo e ainda nem 10h de domingo são.

Para mim informar é diferente de expor e de explorar, expor a vulnerabilidade, explorar o sofrimento, mostrar o que pode ferir susceptibilidades, sendo que existir gente não susceptível a certas coisas é mau o suficiente.



Entrevistar em directo uma pessoa que está a ver a sua casa a arder não é consciencializar sobre a gravidade dos fogos florestais é tempo de antena que explora a morbidez curiosa que todos os seres humanos encerram em si e que os prende à televisão fazendo-os deixar uma garfada a meio para logo depois a meterem ao bucho enquanto se concentrarem nas questões da bola, redundantes, especulativas, que têm tanto de paixão cega como de ódio em estado puro.

Para mim informar significa que pelo menos se procurou chegar aos factos e não se baseou uma notícia só com um ou até vários pontos de vista de uma pessoa ou grupo que viu lá do fundo ao pé do café do Manel.

Ir a uma manifestação sobre a legalização do cannabis e resumir a peça jornalística destinada ao bloco noticioso à entrevista de toxicodependentes não revela imparcialidade no tratamento das questões.

Para mim informar deve ter como objectivo chegar a todos e não só à suposta maioria, pelo que um "Até amanha, se deus quiser" embora também seja uma expressão corriqueira é uma afronta, que me faz pensar se estou num tal de país com a tal de liberdade entre outras coisinhas, de credos.

Para mim informar num telejornal deve resumir-se a assuntos relevantes e se há dias em que o telejornal se estende, deviam existir dias em que se encurta porque encher chouriços é trabalho de charcutaria e não de jornalistas.



Para mim numa entrevista num bloco noticioso deve-se no mínimo fazer o maior esforço humanamente tangível para deixar de fora os juízos de valor que todos carregamos por dentro.

Para tecer estes comentários estou a basear-me em constatações que fiz no fundo à cerca de dois anos, isto porque hoje é raríssimo ver um telejornal, hoje vou escolhendo a informação a que quero ter acesso, o que não me tornou mais feliz, porque mesmo que os meus olhos não vejam eu sei que o mundo existe e roda aos solavancos para além deles, mas consegui tornar-me menos ansiosa, o que é muito bom para a saúde.

Porque é que deixei de ver? A política nua e crua em Portugal e não só naturalmente é uma circo de fantoches massacrante, enoja, revolta, envergonha, o sofrimentos em todas as suas vertentes é mostrado, discutido, exibido, comentado, não o quero ver, angustia-me. A perda de valores de uma classe profissional é demasiado flagrante, é claro que há excepções, mas já não compensam o resto do saco de farinha.

Enfim visto que, cristo,  jesus, não tenho tv cabo, na casa onde vivo à muitos anos, porém inadvertidamente apanho alguns canais poucos, há dois anos que vejo religiosamente a telenovela da globo sempre que estou a jantar, deitei fora os preconceitos, não todos, que os preconceitos são como coletes à prova de bala, e gosto muito.