8.8.14

O porquê disto, esclarecimentos iniciais

Há uns tempos que comecei a pôr em causa certas coisas na minha postura em relação à vida. É um questionamento recente e ainda só está na rama, mas pode ser finalmente, a mim parece-me que sim, e mais do que isso quero que seja, um questionamento que finalmente leve à formulação de um eu mais firme, mais pleno, efectivamente consolidado.

Das coisas que mais me orgulho em mim, é da capacidade que tenho tido até agora para pensar pela minha cabeça, porém apesar de ser pouco volátil a seguir irracionalmente influências, racionalmente ponho-me vezes demais em causa, sinto-me demasiadas vezes isolada, sem motivo de conversa com a maioria, e isso aflige-me.

Gosto de ser como sou, mas aflige-me não ser como os outros todos, porque isso implica sofrimento e implicou desde que me conheço como ser pensante. Pelo que o processo que está em curso agora em mim envolve ter a certeza de que ser como sou é bom, ponto final paragrafo, ficamos conversados.

Não gosto de falar da vida dos outros de forma superficial e principalmente insensível. Não é uma distracção viável para mim destilar juízos de valor sobre a roupa de sicrana e os sapatos sujos da cigana, a ponta dos cabelos da xpto e quem anda a comer ao fim de semana.

Não gosto de nada que explore como entretenimento, nem de outra maneira qualquer, o pior que os seres humanos têm dentro de si.

Não gosto, na verdade abomino, fico enojada, com vergonha, sem conseguir perceber, os fenómenos em que o mau, a raiar o vergonhoso de facto, é fornecido como plenamente admissível. Para quê tantos programas de caça talentos e tretas se o que é massivamente veiculado é merda? A quantidade de gente a ganhar dinheiro com merda daquela mesmo podre, é tão ostensiva que se torna inacreditável.
A televisão em sinal aberto em Portugal não pode ter outro objectivo sem ser o de embrutecer ainda mais os embrutecidos, deixando-os ainda pior, mas também puxar para o mesmo buraco os mais esclarecidos.

Não gosto da falta de privacidade a que nos subjugámos porque consumimos sofregamente a dos outros.

Não gosto do sofrimento, da morte, da destruição exploradas em directo, informar é preciso, não ter filtros é expor, é desrespeitar, é ocupar espaço à conta da dor plena dos outros.

Não gosto da mulher a quem não chega valer pelo talento, pelo trabalho, pela visão, mas que vale mais do que tudo e que vende mais do que tudo o resto o ser uma máquina sexual.

Revistas cor-de-rosa despoletam em mim um nível de tristeza de uma dimensão insuportável, publicações como o (até me custa escrever, assim como a minha arcnofobia me faz não tocar em aranhas impressas num papel) correio da manhã fazem-me ter vergonha de ser pessoa.

Não gosto de conversas prolongadas sobre unhas, cabelos, calos, borbulhas, rugas, pintelhos, banhas,
mais do que 5 minutos sobre esses assuntos e tenho vontade de vomitar.

Não gosto de discorrer quase como numa tese sobre a superioridade da minha gaveta das cuecas, sobre como é bom ter um armário encastrado, só porque tenho, e o que eu tenho é sempre melhor, excepto no que diz respeito a galinhas, ai alto e para o baile, as da vizinha, sempre as da vizinha.

Não gosto de muita coisa que para a maioria é indiferente, ou que até apreciam muito.

Ai adoro ver como estou bem em comparação com aquela mulherzinha no telejornal em directo do outro lado do mundo, que acabou de ficar sem família e sem casa, deve ser horrível ficar sem casa! Que bem que eu estou! Na minha casa intacta! Porca como eu, mas tão linda! Ai e já viste este lenço que eu comprei hoje! Ai coitada, está desempregada, teve de ir aos caixotes do lixo do supermercado, que tristeza, enfim, estudasse!

Mas este post era para ser sobre o motivo do nascimento deste blog. Trata-se de um meio para alcançar um fim. Trata-se de um trabalho comigo mesma, de aceitação, de esclarecimento, de maturação, se o meu caminho for útil para alguém, melhor, de resto em alguns posts tenho esse objectivo, o de ser útil.

Não tem como objectivo professar nenhuma "religião", quem não quer ler, não quer perceber mas mais que isso faz por não perceber, quer criticar numa de enxovalho, quer envenenar faça o favor de se meter no caralho.

(Quando me irrito tenho um carácter um bocado agressivo, mas cão que ladra não morde?)

E também sou apologista de que não vale a pena chover no molhado e quando não nos identificamos com uma coisa não devemos despender muito tempo com ela pela nossa rica saudinha.

Sou o tipo de pessoa que só discute argumentivamente consigo própria, quando percebo que não falo a mesma língua que alguém, fico por ali e assobio para o lado, lá no fundo não me interessa convencer ninguém efectivamente de nada porque não tenho força suficiente para me dar a esse trabalho.

Mas espera este blog não parece bem ser o meio de professar uma "fé"? E não implica um certo trabalho de persuasão? Implica, na verdade implica.

Bem uma coisa que fique desde já esclarecida, as pessoas são idiossincráticas por natureza, tal como têm mau hálito quando acordam, bem e eu não sou nenhuma excepção que confirma a regra.

Muitas vezes vou incorrer no risco de parecer, quiça ser sem saber, incoerente, mas vou arriscar.