11.8.14

COMPRAR VS SALVAR ou como adquirir tem menos valor do que amar

As coisas são objectos inanimados dos quais nos servimos pelas mais diversas razões. São sapatos, malas, frigideiras, livros, escovas de dentes, enfim e tudo o que não respira, não vocaliza, não come, não brinca, não dói.

As coisas são passíveis de serem descartadas, de serem substituidas, de serem dadas. Podemos deixar de gostar de uma coisa de repente, deita-la fora e arranjar outra, a coisa não vai passar fome, não vai ter frio, não vai ficar doente e morrer, vai continuar impassível na sua qualidade de coisa, coesa, resiliente, insensível.

Um animal não é uma coisa, é uma entidade viva com necessidades básicas tal como as pessoas. Não vive sem comer, sem beber, sem abrigo.

Um animal ao ter-se tornado doméstico, e assim se tornou por nossa responsabilidade, precisa de nós.

Existem pessoas, toda a gente sabe, que adoptam ou compram animais domésticos e posteriormente os abandonam, porque afinal não dá jeito, porque, então e nas férias vamos estar a por-nos em trabalhos? Porque afinal estragam coisas, sujam, porque é preciso dar de comer, como é que não pensamos nisso?! Porque agora nasceram uma data deles e como é que a gente faz depois de nos termos fiado na virgem?

Porque afinal cresceu e já não é tão bonito, porque está doente e não dá, porque os miúdos já não ligam nenhuma e já estou farta de ser escrava do bicho, porque ir levar à rua no inverno é super desagradável, porque não tenho tempo para ele, porque já não está na moda e continua a babar-se imenso.

Pessoalmente só consigo conceber uma razão para colocar um animal fora da nossa família, um animal que a certa altura decidimos ter deliberadamente, não ter comida para lhe dar.

Infelizmente mais do que conseguir conceber isto, tenho a certeza que há muita gente que não concebe, mas sim, não nascemos todos com berço, não nascemos todos com segurança, existem pessoas para quem as coisas podem torna-se piores do que já foram, existem pessoas para quem as coisas podem ter começado más ou a qualquer momento tornarem-se más. O "sonho americano" não é como o sol.

Para além de questões em que pode faltar dinheiro para alimentar um animal, os casos de doença também são delicados e em certas situações pode ser necessário tomarem-se decisões difíceis, fazerem-se ponderações que todos gostávamos de evitar, mas solucionar mandando para a rua não é digno da nossa condição de seres pensantes com sentimentos.

Enfim dado isto, o que é certo é que existem mais do que centenas de animais em instituições para adopção e das duas uma ou foram abandonados, ou nasceram na rua, o que é certo é que precisam de donos, são vulneráveis e constituem um problema social.

Animais ajudados por pessoas que fazem das tripas coração todos os dias, porque todos os dias é precisa comida, todos os dias é precisa muita coisa. Pessoas como não há muitas.

São gatos e cães, a maior parte sem raça definida, (embora o número de cães de gabarito também não seja de todo insignificante) sem pedigree, sem características de personalidade cientificamente definidas, muitos deles mais saudáveis e com muito menos propensão para muitas doenças do que os animais feitos por medida quase que em linha de montagem. Animais imponentes, de pelo brilhante, inteligentíssimos. Animais de que nos sabe tão bem gabar aos amigos como se fossem iguais à televisão topo de gama que temos na nossa linda sala.

Animais lindíssimos que são mais um material transaccionável, um negócio.

Não tenho nada contra cães e gatos de raça, atenção, gosto de todos os cães e de todos os gatos do mundo, não gosto naturalmente é de todas as pessoas.

Mas em vez de comprarem, adoptem. Bem pelo menos ponderem a questão, quiçá por um que comprem porque querem muito adoptem outro para equilibrar o cosmos.

Outra questão sensível e é muito importante deliberar sobre ela, é sobre se devemos deixar os nossos animais de estimação procriarem. Devemos ponderar seriamente se vale a pena arriscar o nascimento de uma ninhada grande para a qual podemos vir a ter muita dificuldade para conseguir arranjar um lar.

Enfim a questão é: o animal perfeito não existe, a raça pura, por mais pura que seja, tem defeitos, vários aliás. Os animais institucionalizados podem não ter um nome de raça determinada, mas vão ter o nome que lhes derem, vão fazer parte da família, vão ser companheiros de jornada, vão acalmar o nosso espírito, precisam de nós e nós precisamos deles.

A bondade cura muitos males. Todos? E deve ser indiscriminada, vamos lá fazendo por sermos bonzinhos...