29.8.14

A culpa essa madrasta malfadada

Esta noite acordei culpada, não vi o grilo mas sei que esteve por lá. Ainda o chamei para ver se para além de me alertar para os problemas, vá. questões, me dava uma mão mas soluções. Não deu, conclusão deu-se-me sim para a insónia, mas não fez mal que já eram 6 da manhã.

A culpa é como uma madrasta má que até nem desgosta de nós e que só quer o nosso bem mas nunca nos vai ter o amor de quem nos colocou cá para dentro disto e que não anda cá com paninhos quentes, não usa eufemismos, não nos dá palmadinhas no cocuruto da cabeça.

Às vezes a malvada nem aparece logo, deixa passar uns tempos e chega de mansinho, quando se dá por ela estamos nós e a culpa engalfinhados como que numa bola de neve a descer uma montanha.




Cresci a acreditar piamente que o esforço, a acção, a proactividade levavam ao sucesso e não sendo o único caminho para o alcançar era um caminho certo.

Cresci a esforça-me, a trabalhar, a querer sempre fazer o melhor que conseguia, nunca quis ser melhor que ninguém, de resto não sou de todo uma pessoa competitiva, talvez por medo das derrotas, tal como não sou uma pessoa capaz de odiar convicta e nitidamente, talvez por falta de coragem de fazer frente. Ainda estou para descobrir se quando dou a outra face não a dou muitas vezes só por fraqueza.

Mas apesar de não querer ser melhor que ninguém, sempre quis ser melhor do que era. Melhor pessoa, mas coerente, mas esclarecida, mais capaz.

Entretanto à medida em que os anos foram passando a minha crença de que o esforço levava ao sucesso foi perdendo força, de resto a minha concepção de sucesso também mudou.

O esforço pode levar ao sucesso mas não é nenhuma receita digna de chefe de cozinha assim à partida, se calhar sempre foi assim, não sei e eu é que era ingénua para o perceber e acreditei num mundo que nunca existiu.

Porém era melhor nunca ter perdido essa convicção tão estruturante porque quando a perdi, perdi muitas outras coisas, nomeadamente quota parte da esperança, 1/3 da motivação, 1/4 do espírito de sacrifício, 1/2 da responsabilização.

Hoje considero que a possibilidade de sucesso é composta por 50% de esforço, 50% de sorte, isto sem ter em conta todas as variantes que definem o que o nosso esforço pode alcançar face ao contexto em que nascemos inseridos, mas principalmente sem ter em conta as variantes relativas à "quantidade de sorte" que podemos ter.

Voltando à culpa, uma das tipologias que nunca me larga é a culpa por não estar a fazer a minha parte, a tal que vale 50% e que se não for feita vai desfavorecer a sorte.

Bem esta noite dormi mal mas podia ter sido pior, foi só a culpa que me abanou o ombro, qual madrasta, mas no caso materializada em grilo e que me disse:

- Vê lá se atinas, fia-te lá na sorte, deixa-te ficar á sombra e depois fica a chorar no leite derramado para ver se eu me importo.

Bem o que é para mim ter sucesso? ter um trabalho onde seja respeitada, ter uma casa arrumada, uma família que adora os nossos jantares, ver o mundo quer seja a partir de uma cama de dossel, quer de uma tenda num parque de campismo com baratas, entre outras coisas.

Para mim ter sucesso é ver-me ao espelho é constatar que nunca deixei de lutar por ser um ser pessoa melhor e parecendo que não dá tanto trabalho como construir um império e requer 100% de esforço sem tréguas, sem feriados ou férias, sem 13 mês, é uma exploração obscena!