25.8.14

A beleza vende o que a ignorância quer comprar

Perante a beleza o discernimento é cego. E para o belo indelineávelmente se tende.

A criança bonita recebe mais atenção, o cão bonito é o 1º a ser adoptado, a mulher bonita até pode ser débil mental no que à sua índole diz respeito, que a beleza faz disso um pormenor.

A adolescente bonita tem preferência por parte dos professores e o ensino é tão cego como a justiça, a jovem adulta atraente de peitos salientes é mais pessoa que as outras. Os seus sentimentos importam mais, o tom de voz é tão melodioso, a maneira como pisca os olhos...oh que sumptuosa!

O carácter de uma pessoa não está na maneira como trata o bonito, mas na forma como trata todos os outros.

Mas entretanto fazem-se extensas ovações à beleza, prolongadas odes aos belos, orquestras inteiras clamam aos céus a superioridade dos lindos.

Um dos seres humanos mais desprezíveis que já conheci era um dos mais bonitos, dentro dos meus standards vá mas não só. Tinha uns olhos bonitos, uma boca bonita, um nariz bonito, um perfil bonito, um cabelo bonito, um corpo bonito, muita era a boniteza de quase criatura talhada na pedra.

Tinha também uns olhos pérfidos, um nariz arrogante, uma boca cínica, um perfil de hiena, um cabelo de óleo fula, passo a publicidade (não patrocinada hã!) um corpo de monstro papão que leva as crianças num saco se não comerem a sopa, para lhe irem pentear os cabelos escorregadios antes de dormir. Meninos ponham-se a pau!

A sua falta de carácter é consensual, o seu tom semelhante ao sibilar de uma cobra angustiante para todos. Prejudicou muitos, foi fodendo a vida a outros tantos. A uns maltratou directamente (e continua a maltratar?) a outros por proximidade aos primeiros.

Faz um post no facebook tem 50 gostos numa hora. Ai que linda. És tão bonita! Fofa temos de ir tomar um café! Querida há quanto tempo, estás cada vez melhor! Põe mais fotos! Bem que podias pôr essa foto mais logo, que agora não dá jeito.

Volto a frisar, a má índole é consensual, a beleza também.
Quem ama o bonito, do resto se esquece.

Achei-a bonita durante muito tempo, já não acho de todo. Também escolhi o livro pela capa, mas já a rasguei e agora restam folhas de histórias de dias em que vi que a beleza não traz felicidade. Que uns olhos meigos podem ser maus, que uns lábios suaves podem ser venenosos.