26.9.15

Refugiados vs Sem-abrigo

Pois é...ai e tal e os sem-abrigo que temos cá? ninguém lhes dá uma casa? bla bla bla, merda à colheres, ai que eu isto e eu aquilo! E assim se tapa o solinho com a peneira.

Que surpresa esta de haver tanta gente preocupada com sem-abrigo, ninguém diria. Afinal na realidade ninguém, excepto as pessoas que os ajudam diariamente com comida e que nos dias de estados atmosféricos mais críticos os ajudam a arranjar onde dormir, os vê.

Sem-abrigo estes que são pessoas que vivem na rua pelas mais variadas razões, uma mais dramáticas que outras, com mais ou menos, ás vezes nenhuma, vontade de voltar à sociedade de uma maneira produtiva, também pelas mais diversas razões, por desesperança, por pessimismo, por não quererem, nomeadamente ter o que de bom e de mau existe no regresso às obrigações de uma vida comum, com horários, trabalho, família, sim há quem não queira ter ou voltar a ter uma.

Se os sem-abrigo precisam de ajuda? sim, sempre. De casa? Certamente que não numa primeira fase pelo menos...Sem-abrigo precisam de um trabalho de reabilitação, psicoterapia, se o desejarem, serem alojados numa casa de acolhimento temporário até poderem fazer a transição para outro contexto, apoio para estudarem se precisarem (alguns têm formação superior de resto), ajuda para fazerem um cv e procurarem emprego, precisam muitos de um barbeiro e de tratamento no caso de terem dependências. Dar-lhes uma casa sem ajudar a resolver o resto pouca diferença faria.

De resto à muita pobreza entre paredes, quanta dela de espírito.

Dado isto não, não se pode arremessar sem-abrigo contra refugiados e comparar a ajuda de que uns e outros precisam e muito menos o contexto.

Já agora para quem ainda não sabe o que é um refugiado (aos quais também andam a chamar hipocritamente de migrantes)

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

Refugiados belgas em Paris, deslocados por causa da Primeira Guerra Mundial (1914)
Refugiado é toda a pessoa que, em razão de fundados temores de perseguição devido à sua raça, religião, nacionalidade, associação a determinado grupo social ou opinião política, encontra-se fora de seu país de origem e que, por causa dos ditos temores, não pode ou não quer regressar ao mesmo. Ou devido a grave e generalizada violação de direitos humanos, é obrigado a deixar seu país de nacionalidade par.a buscar refúgio em outro país.

Não sei se a empatia se ensina...mas sei que quando se utilizam argumentos destes, o de questionar a ajuda aos refugiados pela existência de sem-abrigo no nosso país, para mostrar desagrado à ajuda a ser dada a pessoas provenientes de contextos extremos de sofrimento e destruição, alguma coisa está errada.

Se a questão da vinda dos refugiados levanta várias questões legitimas, levanta e têm de ser atendidas, mas também levanta muitas que são ilegítimas, desumanas, desonestas, hipócritas, xenófobas, medíocres.

Se vou receber um refugiado em  minha casa, ou um sem-abrigo? não, tal como não receberia 99,9% das pessoas do mundo, mas se considero que o meu país assim como todos os outros onde se levanta esta questão dos refugiados Sirios em particular, devem alavancar meios para receber dignamente as pessoas em fuga, sim considero.

Mas apesar de não receber nenhum refugiado em casa e de ainda não ter feito nada para ajudar, percebo que podíamos ser nós as vitimas, percebo que um dia podemos ser nós as vitimas e que nessa altura vamos engolir o maior sapo que já engolimos na vida, se esse dia chegar, gostava naturalmente que nunca acontecesse, vamos ter sorte se só ficarmos sem-abrigo e vamos ter ainda mais sorte se ainda restar alguma humanidade.

O medo é legitimo, não olhármos para os outros como seres humanos como nós faz de nós por nossa vez, monstros e não seres humanos dignos dessa denominação.

O que está a acontecer na Síria é uma calamidade e infelizmente só mais uma. Na Síria moram e moravam pessoas que apesar da tez da pele, da religião, da cultura, sentem a dor de perder um filho, uma mãe, uma casa, um brinquedo, moram e moravam pessoas que nunca pensavam ir passar pelo que lhes está a acontecer tal como nós pensamos nunca ir passar por 1/3.
Não sei se a empatia se ensina, mas não se perde nada em tentar.

A fotografia abaixo parece-me uma montagem, até pode não ser, e se de facto for de uma pessoa que está na rua e que quer não estar percebo-a perfeitamente. O que já não percebo é a partilha destes conteúdos nas redes sociais, aliás percebo, mas que me entristece lá isso entristece...e assim ocultei mais uma pessoa do meu feed.

Casa nova também eu queria, assim como condições de trabalho dignas, consulta no médico de família a tempo e horas, apoio para poder e ter tempo de ser mãe e dar uma educação com mais margem aos meus filhos. Casa nova eu também queria, mas eu querer casa nova não implica que rejeite pessoas de maneiras que a mim me matariam de desgosto, se fosse eu a rejeitada.

Entretanto recomendo a leitura disto: http://porfalarnoutracoisa.sapo.pt/2015/09/10-razoes-para-nao-acolhermos-refugiados.html