10.9.15

A Feira Alternativa de Lisboa e a marisqueira da minha "aldeia"

Afinal vou começar pela marisqueira que apesar de tudo é um tema bem mais leve...o rapaz só queria uma cerveja, a minha mãe um café para não variar e a minha amiga até nem queria nada, mas eu pensei, já estamos num mês de "r" vai na volta são os últimos caracois do ano, vamos lá pedir uma travessa para esta gente toda (eu geralmente como 80%, desta vez não foi excepção, o rapaz, 5%, a minha mãe comeu o resto).

Assim foi, veio a travessa, estéticamente desinteressante, o conteúdo sem sal, o resto do tempero sofrível. Fui pedir o saleiro, expliquei que simplesmente não tinham sal, quiseram mandar a travessa para trás mas não deixei que até tinha fome para além de gula, pus o sal, de intragáveis e apesar de desinteressantes passaram a comestíveis.

O pão torrado tinha um bocado de bolor, mas como nem sabia muito mal, calei-me caladinha e comi-o, o pior pão torrado de sempre, no cestinho com menos pão torrado que já me veio para a mesa. Mas eu sorria, como se aquele fim de tarde na esplanada fosse o mais feliz da minha vida, e se calhar até foi...

O dono veio ver se estava tudo bem, respondemos ou melhor repondi com sorrisos de "acontece", "não faz mal" e lá continuamos todos sentadinhos na esplanada a falar da vida e de coisas piores mas sempre a rir.

O dono vem e "oferece" um pratinho de mini salgadinhos de camarão que são muito bons e ele recomenda. Eu rejubilo pela...simpatia...?

Comemos os salgados, bem melhores que os caracois...

Pedimos a conta. O rapaz paga, o sr volta a esconder o papel na capinha. eu peço-lhe o papel.

Saldo: os caracois para além de serem os piores que já comi, de olhos fechado eu que nunca fiz um tacho deles faria melhor, foram também os mais caros.

Mas o que me custou mais foi a minha ingenuidade...a de ter pensado que os salgadinhos eram cortesia da casa pelo flop dos caracois. Não eram, e o pão tinha bolor, os caracois não tinham sal, a marisqueira está muitas vezes vazia e a freguesia nem sempre é a melhor, o meu avô nos seus anos negros até fora cliente assíduo.

O marisco nem sempre é de confiança, mas temo que quem o vende seja menos. Claro que pelo pecador paga o santo, o que é certo é que a mim não me voltam a tirar pinta de otária, mas que eu gostava de lá voltar para avisar para terem cuidado com a merda do pão gostava...

Mas agora outro tema que ao pé deste primeiro, (as crónicas do marisco que afinal sera só caracol, vendido ao preço de camarão), é bastante mais sensível.

Fui com a minha mãe à Feira alternativa. Ela nem tinha muita vontade. O rapaz  nem metade e ficou na cama a dormir...se eu tivesse um dedo que adivinhasse tinha ficado também mesmo que a minha mãe quisesse dormir no meio...mãe se quiseres não há problema! ;)

Lá fomos, tra lá lá, a vida a ser difícil e nós à procura da rua, a vida a ser o que é e nós à porta da entrada.

Entrámos e fomos assoladas por um sentimento comum de mal estar geral quase instantâneo. Á nossa direita um daqueles aspiradores que só não aspiram a merda da alma. Á nossa esquerda um suplemento para quem quer adquirir um corpo de ginásio, daqueles ou torneados que fazem sobressair os peitos ou um daqueles inchados que geralmente só demonstram que se é pouco mais do que ar por dentro.
Mais à frente um fabuloso cortador de legumes que poupa trabalho, esforço, incomodos, sujidade, só não poupa nem a carteira nem a falta de tino.

Ali ao fundo a banha da cobra, o creme milagroso, a depilação natural, lá atrás esqueci-me dos colchões e das cadeirinhas de masagem, iguais às que de resto também vendi, que comer era preciso e continua a ser.

Se as voltava a vender? espero que não, mas a vida prega-nos partidas...

No meio deste lamaçal, escolas de yoga, de terapias alternativas, de várias coisas que mais ou menos efectivas faziam sentido no contexto. Ao redor disto, tudo se vendia, roupa, objectos decorativos, pedras, enfim.

O que é certo é que a fruta podre embrutecia o todo. Minava a confiança, metia tudo e todos num mesmo saco de lixo indiferenciado. Uma coisa que se queria pacifica, calma, relaxante, zen, tornou-se numa experiência repulsiva, qb angústiante, e no geral triste, com votos expressos de nunca mais regressar.

E assim se vê que o dinheiro fala mais alto, que o respeito só muito esporádicamente impera, que é viver e aprender para não voltar a ter a sensação de ter caído em mais uma esparrela, queda que roça quase sempre uma certa sensação de humilhação.

Porém que estes confrontos com as realidades não nos tirem nunca a capacidade de arriscar. Olhos abertos sim, tolerância sempre, mas a complascência pode sair cara.

Para a próxima mando o pão para trás. Para a próxima quando ouvir falar em alternativa e em feira, tendo perceber melhor ao que vou. Para a próxima posso voltar a ficar chateada, mas não vale a pena virarmo-nos contra nós próprios.