10.9.14

Sobre como trabalhar na loja dos colchões mudou a minha vida

Se um dia chegar ao meu 1º milhão, não quero, mas se lá chegar, nem me importo, foi aqui que tudo começou, ou melhor ali, na loja dos colchões, foi lá que pela 1ª vez cheirei a cor suja do dinheiro, mas um sujinho que de facto dá gosto.

É uma loja de colções como outra qualquer, nem pior nem melhor, era o que são tantas outras lojas pelo mundo, era uma forma de ganhar a vida como há muitas, e ganha-se a vida com peças de roupa trendy, pinças para tirar a verdura aos morangos, isto acabei de ver no lago dos tubarões, um senhor vendeu a casa pelos morangos, é verdade, maços de tabaco, comprimidos para a azia, imanes de geladeira, bimbys e não este não é um post patrocinado.

Era uma loja de colchões banal, vendia colchões, almofadas, cadeiras de massagens.

Uma vez chegou lá um casal, tinha ido ali ao hiper e passaram ao largo da loja de colchões, uma loja de corredor em frente ás caixas do dito hiper.

E olharam para a cadeira de massagens, a grandalhona, beje, horrorosa, para a qual só se vai ter tempo depois da reforma, e quem olha é como que ajoelha. Olhou vai ser alvo da corte.

-Ah nós já pensamos em ter uma...mas uma pessoa não precisa mesmo de uma coisa destas não é?
- Qual quê! é claro que precisa, isto é um luxo, é ter uma massagista em casa, é toda uma nova vida ao alcance de uma cadeira!
- Então e quanto é que é?
- Para si? Nós agora estamos com uma óptima promoção! Era 4000 mil, mas agora está a 3000 mil!
- Ah pois se calhar vale a pena...
- Então não vale! e olhe se quiser a de exposição fica-lhe por 2700.
- Ah a de exposição não sei, sabe isto depois uma pessoa pensa, é pá, quantas pessoas que já se sentaram aqui!
- Pois é pois é, bem, novinha a sair da fabrica, são os 3000, entregamos, montamos, só não nos sentamos por si! ah ah ah
- Está fechado! a pronto!

Bem como já devem calcular a única cadeira que existia disponível era a de exposição e é essa que hoje vive em casa de quem a adquiriu, aquela em que já tanto rabo se tinha sentado para ser massajado, mas o que o cérebro não alcançou o coração não sentiu.

Bem mas esta loja de colchões é uma loja como qualquer outra. Só compra quem quer, porque quem se põe a jeito, a jeito está.

Quem quer gastar dinheiro gasta, no colchão de nuvens, na banha da cobra, na cápsula que só não cura a crendice, e se o vão gastar, porque não gastarem-no ali com ele, dizia o meu na altura chefe.

Bem como trabalhei na loja dos colchões de colchões percebo eu, comprei o meu no ikea por 70€ e é um gosto de colchão. É claro que só demonstra como sou uma avarenta desprezível.

A loja de colchões fez de mim o que sou hoje apesar de todas as manhas em que sair de casa para a loja de colchões era como ir a de joelhos até á esquina.

Há muito potencial no mercado das coisas inflacionadas, porque há muita gente que rejubila com o dinheiro que gasta, que diz gastar, que se orgulha de gastar.

A loja de colchões ensinou-me que não há fome que não dê em fartura, e quando a mesa é farta, pode-se chegar ao enfartamento.

Eu trabalhei na loja de colchões, vendi-me por pouco e para além disso também me rendi á parte do mundo que quer ser enganada.

Mas atenção eu não sabia ao que ia, eu sou do tempo em que achava que o mundo estava do lado claro da força, eu sou do tempo em que não passava de uma criança.

As crianças não são hipócritas, as crianças não percebem o que é a hipocrisia, eu não percebi até muito tarde, em muitos aspectos andei a viver numa bolha. Mas quando a bolha rebenta só nos resta virar a cara, todos os dias, para sempre, virar a cara, assobiar para o lado e sorrir, porque tristezas não pagam dividas e que caia o dinheirinho Toine, o dinheirinho.